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Sábado, Outubro 24, 2009
UM ESTRANHO NO PARAÍSO
É incrível como a sensibilidade toca de maneira diferente o ser humano. Esse sentimento pode ser mais leve em alguns indivíduos e bastante bruto em outros. A forma como percebemos o mundo também é subjetiva. Cada um faz uma leitura daquilo que está vendo, conforme as informações predispostas no seu consciente. O universo dos meus pensamentos certamente é diferente dos seus. Com isso, experimentamos situações de maneira diferente. O que é extremamente belo para mim pode beirar o ridículo para você.
Pude assistir ao Fantasma da Ópera por quatro vezes na minha vida. A primeira montagem que vi foi o músical em Londres, a segunda em Nova York, a terceira em São Paulo e a quarta eu assisti sentado confortavelmente no sofá da minha casa. Essa última versão tratava-se do filme dos estúdios da Warner Bros. Nem sei em qual desses momentos a minha sensibilidade ficou mais aguçada, mas provavelmente foi quando vi ao vivo. O que eu tenho certeza é de que uma obra de arte é sentida de maneira diferente por seus espectadores.
Ontem eu assisti ao show da Sarah Brightman no Citi Hall. Para quem não a conhece ela é uma soprano inglesa e a sua música parece ter uma melodia do além – um sopro de algo tão sensível que é quase indescritível. O grande barato é que em algumas canções ela consegue juntar o lúdico à batida eletrônica. O resultado é algo encantador.
Sarah foi a primeira Christine do Fantasma da Ópera na Broadway. Aqui no Rio ela se apresentou com uma orquestra de quarenta músicos, com dezesseis instrumentos de corda. Algo realmente celestial.
Aos vinte anos eu comprei um CD da Brightman e outros dois da Loreena McKennit, que transitam em melodias parecidas. É uma música que faz o teu corpo e os teus pensamentos mudarem a frequência. É como se você fosse retirado dessa realidade e transportado para um lugar divino, um lugar tranquilo e belo. Um lugar onde não existe o medo.
Acho interessante o fato de eu ter nascido numa família humilde e sempre ter sido diferente. Nem falo da simplicidade porque essa característica não me pertence. Na minha infância não tive nenhum letrado à volta, infelizmente, mas a minha alma já reclamava por algo distanciado daquilo que os meus irmãos exigiam. Eu ouvia ópera numa vitrola. Me chamavam de maluco.
Tenho concentrado os meus estudos, nos últimos dois meses, em textos que falam sobre arte; sobre o poder que ela exerce no homem e sobre o quê esse homem é capaz de fazer com ela. Como a minha crônica não vai salvar a multidão, nem pretendo tratar aqui sobre a banalização da cultura. Só queria dizer que nos últimos tempos tenho selecionado carinhosamente o tipo de arte que pretendo consumir.
Lembro que na época da faculdade estudei o sentido aurático de uma obra. Acho que sensação igual a que experimentei no show da Sarah só se repetirá no meu encontro com a Monalisa de Leonardo da Vinci. Já estive em Paris e dei esse mole. Envergonho-me por não ter ido ao Museu do Louvre. Mas é desse amadurecimento da sensibilidade que estou falando.
Walter Beijamim escreveu um ensaio sobre a percepção do caráter aurático de uma obra; daquilo que é belo, uno e erudito. Através dele entendi que eu não estava preparado para encarar La Gioconda de frente. Mas, nada me impede de voltar. O museu estará sempre lá.
Só hoje acredito ter atingido um grau mais elevado da minha sensibilidade.
Portanto, a Sarah passou por duas vezes na minha vida. Na primeira eu a ouvi num CD e agora pude vê-la ao vivo. Não fui o único felizardo de uma plateia de quase quatro mil pessoas que se emocionou, que ovacionou e que aplaudiu em pé por inúmeras vezes. Eu não assisti a montagem do Fantasma da Ópera com a Sarah, mas todas as outras intérpretes de Christine são tão auráticas quanto ela.
É tão bom experimentar o belo. É tão bom poder sair desse mundinho padrão que a gente inventou, ou que inventaram para a gente. É tão bom ser assim, sensível, ainda que sejamos um estranho no nosso próprio paraíso.
Imagem: Baixaki
That's all folks!
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ZÉ | 6:10 PM | 40734468
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