AUTOR
Joseph Meyer
Jornalista
Rio de Janeiro
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Domingo, Agosto 16, 2009

"Se nesta continuada confidência muito falei de amor, perdoai, senhores. Somente sei falar dos meus amores". Odylo Costa Filho. Portanto, "Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho". Mário Quintana

MEU ALTER EGO



Como é difícil escrever sobre aquilo que não dominamos. Acho que é por isso que tanto se debateu sobre a possibilidade dos jornalistas serem mais especialistas, em algumas áreas, do que generalistas na profissão. De qualquer forma vou arriscar, na minha sábia ignorância e pretensão, um breve ensaio sobre ‘alter ego’. A meu ver cabe tão bem nesse espaço e, muito mais, em mim.

Li algo muito interessante que diz que a maioria dos super-heróis são homens de verdade que, por algum motivo ou incidente da natureza, tornaram-se criaturas com super poderes. Por exemplo, a verdadeira identidade do Homem Aranha é Peter Parker, assim como Bruce Wayne torna-se o Batman. Entretanto, com Superman é diferente, ele cria uma personagem chamada Clark Joseph Kent, o seu alter ego, para interagir socialmente enquanto não exerce a função de super-herói.

Clark Kent é o sujeito tímido, inseguro e quase covarde, que divide tarefas no Planeta Diário com a também repórter Lois Lane, conhecida pela forte personalidade. Então, Clark é o extremo oposto do Superman – a própria crítica à humanidade. Assim, na visão de Kal-El, nome do Superman no planeta Krypton, nós, seres humanos, somos fracos, vulneráveis, tímidos e covardes. E, de fato, essa não só é a visão do nosso herói, como também a dos seus criadores e de quase todos os teóricos que pensaram a respeito.

A teoria do Mito do Superman, do filósofo Humberto Eco, vai dizer que o herói é um mito moderno, assim como os deuses do Olimpo existiram para os gregos da antiguidade. Em resumo, Eco afirma que Superman tem como principal motivação a manutenção da ordem da sociedade em que vive. “O herói não acaba com a fome na África, não elimina o terrorismo internacional, não acaba com as ditaduras criminosas” – diz Eco. Apesar da sua onipresença e onipotência a única fraqueza do Superman é a Kriptonita. Bem... alguma vulnerabilidade todo herói tem.

Você já deve ter assistido a série A Grande Família e percebido que a dona Etelvina é o próprio Beiçola, composição do ator Marcos Oliveira, certo? Acho fascinante aquela personagem. Para justificar a transformação o argumento é que o pasteleiro teve um surto psicótico ao se vestir com as roupas da mãe, já falecida. Beiçola passou um tempo em uma clínica psiquiátrica. Às vezes, parece um pouco louco e noutras um pouco gay. Descobri que Beiçola ainda é virgem, apesar de nutrir uma louca paixão por dona Nenê.

Dona Etelvina pode ser o alter ego de Beiçola, aparecendo justamente para dizer tudo aquilo que ele não tem coragem de dizer ou fazer. Beiçola é o sujeito tímido, esquisito, fraco. Etelvina é a matriarca forte, que contesta, que dita. Não há uma luta entre o bem e o mal, no entanto, a mãe continuou viva nele para dar a medida das coisas percebidas por ele. Contudo, a medida daquilo que pode e daquilo que não pode é uma visão dele próprio e não da mãe.

A grande sacada dos autores foi aceitar a cumplicidade que as outras personagens têm sobre dona Etelvina, ou sobre Beiçola. Todos sabem que o travestido é o pasteleiro. Mesmo assim, aceitam essa outra identidade, embora bizarra, como 'real'.

Para entender alter ego, em linhas gerais, pode-se pensar como sendo o ‘outro eu’, ‘a outra personalidade' do mesmo indivíduo. No caso do Superman é Kent quem mantém segredo da sua própria personalidade. Então, o repórter é o super ego do nosso herói, diferentemente de quase todos os outros heróis que conhecemos.

A psicologia diz que o alter ego é o lado oculto, o lado secreto da nossa identidade – o eu inconsciente. Já o ego é a parte superficial, rasa, aquela composta pelas ideias, por pensamentos, pelos sentimentos do sujeito. É aquilo que percebemos no outro através dos nossos sentidos. Beleza. É relativamente fácil decifrar uma pessoa depois de alguns minutos de prosa, mas, se vacilarmos, somos capazes de repelir ou ser repelidos, rejeitados, somente através do olhar.

Tem anos que esse assunto me chama a atenção. Acho que todos nós somos curiosos nesse sentido – quando buscamos nos entender. São vários os campos da ciência que tentam encontrar as respostas. Muito se descobriu na física, na biologia, na teologia, na filosofia e na psicologia, na tentativa de encontrarmos o real sentido das coisas da vida. Mas afinal, quem somos nós?

Acho que meus anos de análise faz algum sentido. Preciso confessar que a continuidade que dei à terapia é muito mais pelo bate-papo que travamos, eu e minha analista, do que qualquer outra coisa. Refiro-me ao ritual de sentar e ter uma conversa franca, olho no olho, por aproximadamente cinquenta minutos. Falamos sobre as possibilidades que a vida nos traz e de que maneira podemos viver mais confortavelmente dentro do mundo e dos conflitos que nós mesmos criamos para si.

Tem anos que busco na análise um debate sobre o meu 'eu consciente' e o 'inconsciente'. Não é novidade que ninguém se conhece por completo, tão pouco sabe tudo do outro. Quando citei o mito do Superman, o seu alter ego, o Beiçola e dona Etelvina, foi para dizer que somos pelo menos dois. Mas, de certo modo, acredito que somos vários ao mesmo tempo. Somos aquilo que o outro percebe em nós e isso nos divide em partes. Cabe a nós mesmos juntarmos e construirmos um todo. Cabe a nós essa reconstrução constante da maneira como queremos ser percebidos.

Sabe em que parte o outro deposita a máxima confiança em nós? É exatamente no nosso alter ego. Ele está num lugar mais profundo do nosso consciente – é a nossa verdade. Acho que todos os outros personagens da Grande Família aceitam as loucuras de dona Etelvina porque ela é exatamente aquilo que Beiçola não consegue ser.

Nem falei de mim, mas claro que tô aqui ‘batendo teclado’ para dizer que assim como todo mortal – e todo herói – eu também sou dois de mim mesmo. Cada um sabe o céu ou o inferno que carrega dentro de si. Não há ninguém melhor do que nós mesmos para detectar as próprias fragilidades, as nossas inseguranças, nossas incertezas e covardias. Por outro lado, fomos criados com certa auto-suficiência, seres capazes de realizar, providos de talentos, de bondade. Só nós sabemos o que realmente queremos parecer.

Vejo-me mais para Kent do que para super-herói, apesar do Superman já ter se manifestado várias vezes em mim. Acredito que o dia em que eu for inteiro, serei um cara plenamente feliz. Assim, a vida se encarregará de colocar todas as coisas, que antes me causavam conflito, no seu devido lugar.

Embora o gênero masculino do nosso herói, houve tantos mitos e heroínas ao longo da história – da deusa Afrodite à Mulher Maravilha. Por isso, pergunto: você tá mais para Clark ou para Superman?

Vou fechar a minha crônica com uma citação adaptada, extraída do livro Cartas entre Amigos: “A amizade verdadeira é a excelência moral perfeita. Elas nos fazem entender que ninguém é feliz sozinho. Os amigos encontram-se, descobrem-se e amadurecem juntos”. Aristóteles

Foto: gettyimages

That's all folks!

posted by ZÉ | 11:04 PM | 40695340 | |


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