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Quarta-feira, Julho 22, 2009
O AMOR TUDO AQUECE
Logo na entrada do meu condomínio tem um desses marcadores de temperatura que nessa madrugada registra 14 graus. Acabo de tirar essa foto. Faz frio lá fora. Nem pensei que os termômetros aqui no Rio marcassem uma temperatura tão baixa. Imaginava que o aparelho só tivesse dezenas a partir de 20. Que nada... instalaram o dito numa rua que começa no mar. Tem um vento tão forte ali que o equipamento, além de oxidar, deve travar de frio nos próximos dias.
Eu adoro o inverno nessa cidade, parece o outono do Sul. São dias que convidam ao vinho, convidam a ficar em casa, convidam para um jantar bem acompanhado. O inverno me deixa com o coração caloroso. Finalmente pude tirar o mofo de uns casacos bacanas que sempre quis usar.
Na noite passada dormi todo encolhido no meu edredom. O mais interessante é o contraste entre o dia e a noite; entre a sombra e sol nesses dias gelados. Na piscina do prédio as pessoas tomam sol e a noite o frio é glacial na minha varanda.
Tenho uma lembrança de um dia em que passei frio na vida. Lógico que passei frio durante anos por ter nascido numa cidade do hemisfério sul, ao pé da Serra Gaúcha. Lá o frio é de ‘rachar beiços’ e os termômetros têm aquele simpático sinalzinho de menos que indica que a temperatura é inferior a zero grau – negativa.
O frio a que me refiro é daqueles que baixam a temperatura do corpo e gelam a alma – do físico ao emocional. Tinha recém vindo morar num apartamento aqui no meu bairro, depois de passar algum tempo hospedado na residência de amigos. Era a minha chegada aqui no Rio e eu tinha tantas dúvidas do que realmente daria certo.
Naquele dia eu estava tão feliz pela minha conquista. Acho que estávamos no mês de julho. Finalmente eu iria dormir na minha casa, sem ter que depender dos meus amigos hospedeiros. Mas, na ocasião, além de uma mala com roupas, livros e CDs, eu só tinha uma manta de sofá. Beleza! Com o quê iria me cobrir naquela noite? Com a manta de sofá, claro! Foi a primeira vez que dormi de calças jeans e meias. Foi a primeira vez que passei frio de verdade.
Na hora do aperto você se lembra dos amigos. Você pensa em dar um telefonema, pensa no pai e na mãe, mas eu não queria arrego – não queria chorar. Aquele frio me deu a certeza do que eu queria na vida; da luta que viria dali para frente. Eu sei que milhares de pessoas passam frio, passam fome, mas a história de vida de cada um é singular. A vida não é igual para todo mundo e a tua sorte pode ser o azar do outro. No dia seguinte eu já tinha um cobertor quentinho.
Hoje fui até uma agência dos correios e comprei uma caixa grande para despachar um presente. Você já deve ter ouvido um provérbio de Mateus que diz “que não saiba a vossa mão esquerda o que faz a direita”, se referindo ao fato de que você não precisa anunciar o infortúnio de quem você vai ajudar. Ok. Penso que o cara tem toda a razão, no entanto, se o teu gesto servir de exemplo ou incentivo ao outro, porque não? Só não vale transformar o teu ato em espetáculo.
O que quero contar é que separei algumas peças de roupas maneiras que encheram a maior caixa que consegui comprar. Todo o ano eu acumulo uma quantidade de roupas no armário que não faz sentido. Entretanto, no final, concluo que é bom poder comprá-las para depois ter o que doar. Nem sei se o sujeito presenteado realmente vai aproveitar, mas me faz bem.
Tenho recebido telefonemas de entidades que se dizem filantrópicas e que praticam assistência social. Um saco! Eu, particularmente, decidi não contribuir dessa maneira. Existe um verdadeiro comércio de exploração da caridade que tira proveito da benevolência alheia. Se estas instituições precisam de ajuda que peçam no governo, na iniciativa privada, ou aguardem uma ação espontânea minha. Quando eu julgo que posso, vou até o local e contribuo com o coração.
Acho que todo o dia a vida se encarrega de nos dar pequenas lições. Vai de cada um aprendê-las ou não. A percepção do mundo é muito individual. Um dia eu senti frio de verdade para entender como não é bom senti-lo. Sabe-se lá o que vou experimentar daqui para frente, mas se eu ficar atento tô aprendendo a todo instante, com erros e acertos. Vem cá... não tem nada sobrando nesse roupeiro não? Que tal passar adiante?
Na vida a maioria dos dias é quente, mas noutros o frio pode congelar nossos dedos e nossa alma. Sabe do que lembrei agora? Que um abraço esquenta e se tiver amor tudo aquece.
Foto: arquivo pessoal
That's all folks!
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ZÉ | 1:00 AM | 40678351
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