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Domingo, Maio 17, 2009
PEQUENO ARTHUR
Lá no Sul o sol se põe uma hora mais tarde do que aqui no Rio. Parece que o dia é mais longo. Estamos no final do outono e logo chegará os dias de frio. Sempre que visito a minha família tenho a sensação de que algo se modificou em mim – e para melhor. Apesar de estar distante me sinto parte deles, me sinto exatamente igual a eles. Tá no código genético e isso ninguém modifica. São heranças culturais da colônia alemã; são registros passados de pai para filho.
Acho que a minha sensação é de dever cumprido, de bateria recarregada. Fico mais completo porque paro de pensar em mim. Durante os dias de visita me doo integralmente. Teve o tempo em que fiquei chato e achava que os novos costumes adquiridos na megalópole carioca eram mais interessantes. Depois concluí que o jeitinho e a simplicidade daquele povo valiam peso de ouro.
Exatamente às seis da manhã pode-se ouvir os primeiros passos pela casa. Apesar de a família ter ficado pequena, com a saída dos filhos da casa, a rotina continuou a mesma. O chimarrão é quase um culto sagrado às tradições. No final do dia ele se repete numa roda que reúne as pessoas da casa e quem mais estiver por perto.
Já o almoço respeita uma tradição imposta pelo poder patriarcal. Religiosamente às 11 horas e trinta minutos ele está posto à mesa. Nenhum segundo a mais nem um segundo a menos. Isso se dá pelo fato da zona do bairro ser industrial. Às 13 horas todos precisam retornar à esteira de produção.
E o café que tomamos no meio da tarde? Sabia que lá todos têm esse hábito? Tem o pão quentinho, a chimia de frutas, a cuca que foi comprada da confeiteira que a ofereceu no portão da casa. A nata servida é um tipo de creme de leite muito parecido com o tradicional requeijão. São tantos quitutes e sabores que lembram a infância e toda uma vida.
Como é bom ter a possibilidade de dar um colinho para alguém – é bom recebê-lo também. Não vá pensar que homem grande não precisa disso. Tô falando no sentido figurado. Quem pede colo é a alma da gente.
Você observou a foto? Aquele é o pequeno Arthur, o último dos herdeiros. Parece ter puxado pela família Einsfeld. Imagino que esse menino, quando crescer, vai se tornar um belo de um alemão. Essa linhagem tem gene nórdico - um charme que só. São altos, louros da pele bem branca; os cabelos são alinhados pelo vento de tão finos, o olhar é 43. Beleza... puxei por eles!
Vou contar os dias para voltar. Nunca sei se será em breve ou daqui alguns meses. Mas a certeza que tenho é de que conto os dias para revê-los. Eu e minha mana temos o hábito de trocar e-mails. Para você ter uma melhor ideia eu mantenho uma linha Voip direta e exclusiva com a casa da minha mãe. O contado diário nos aproxima e nos atualiza. Me faz bem.
Não vou acompanhar de perto o crescimento do pequeno Arthur, mas de uma coisa eu tenho certeza: do gene que carregamos. Ele pode puxar a mim, ser meio forasteiro, meio errante. No entanto, o porto mais definido e seguro que ele encontrará será a casa dos pais e dos avôs – da família. Podem-se passar os anos, mas na nossa casa encontrará o mesmo café, o mesmo chimarrão, e o mesmo carinho que eu encontro a cada vez que retorno.
Foto: arquivo pessoal
That's all folks!
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ZÉ | 12:12 AM | 40634228
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