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Quinta-feira, Março 19, 2009
CONTRARIANDO DR. GOLDIN
Infelizmente, tive uma semana do cão. Tô com a cara amassada, os olhos caídos, a barba por fazer e no ombro sinto uma dor aguda, uma lesão provocada pelo excesso de peso no supino reto. Que treino puxado que fui me meter. Essa ansiedade de querer ganhar o corpo de deus grego foi dar nisso. Visitei um ortopedista na terça e quis convencê-lo, a todo custo, de que era quarta-feira. Treinei na quarta a série de quinta. Tô todo errado. Acho que quero é que a semana acabe logo. Preciso encarar dez sessões de fisioterapia e mais um exame de arrepiar, daqueles que se aplica contraste – uma artrorressonância magnética do ombro, com aplicação de contraste na articulação. Deu medo!
Enfim... ando arrasado, dolorido, e triste. Tô precisando elevar os níveis de serotonina no meu organismo. Tô precisando ser mais feliz! Não tem àquela hora em que você cansa de parecer bonitinho; de parecer feliz; de parecer magro; de parecer sarado; de parecer bronzeado? Todas essas aparições não são passageiras? Pare de malhar, de tomar sol, de fazer o cabelo, de fazer a barba para ver quem você é de verdade.
Já ouviu falar em feromonio? Trata-se de uma substância química que os animais de uma mesma espécie liberam para se reconhecer – incluindo o homem. Ele é naturalmente exalado para provocar excitação ou estímulo no outro, podendo ser sexuais, de alarme, de agregação.
Será que um dia vão conseguir encapsular essas substâncias? Será que um dia vamos jogar um pozinho na bebida da nossa presa para que ela se apaixone incondicionalmente, para que o encanto só se desfaça segundo nossa vontade? Nem responda às minhas perguntas se fiz você lembrar-se de boa-noite-cinderela e similares; ou as cápsulas da felicidade embaladas para certo período, como êxtase, fluoxetina, anfetamina. Essas não valem. Falei de hormônios, não de drogas.
Tava pensando... acho que fiquei preso num passado de realidades que confinam a ilusão. Metade dele é real e a outra metade eu inventei. Só não consigo compreender o porquê do meu consciente se recusar ao abandono. Para toda a vida há morte e luto; há desistências, sofrimentos e, finalmente, um depois. Esses ciclos não têm tempos definidos, muito menos temos um poder consciente sobre eles. O conselho da maioria é esperar... sabe-se lá por quanto tempo.
Bem... vamos ao que interessa. Toda essa introdução desastrosa e nada positiva é para conduzi-lo ao mundo das coisas que decidiram dar errado, pelo menos para mim. Vou incluir no meu texto a crônica do psicanalista Alberto Goldin, publicada recentemente no Globo. Essa eu quero que fique para a eternidade. Por um lado, acho que o doutor não conhece a respectiva ferramenta citada – o Orkut, mesmo assim, gostaria de saber se você o contrariaria.
Em resumo:
A carta de Suzy.
Após um longo relacionamento conflituoso, entre brigas, términos, reencontros românticos e muito ciúme, consegui por um “fim” ao meu namoro com Eduardo. Já se passaram alguns meses, mas o que parecia ser uma solução virou um tormento maior. Eduardo faz questão de mostrar que está por cima da carne-seca, postando fotos com outras mulheres no Orkut. Tenho silenciado minha dor e minha mágoa, mas minha auto-estima está no pé. Luto para me ocupar com o trabalho, mas minha curiosidade é enorme e me sinto traída. Suzy.
A hora da vingança de Goldin.
A vida já era difícil antes da onipresença do Orkut. Nada contra o progresso, admito que preste um enorme serviço a milhares de indivíduos (jovens ou não) que, através dele, descobriram amigos, interlocutores e namorados. É inútil ser contra, ou criticá-lo, mas é preciso alertar para o fato de que suas virtudes não o eximem de alguns perigosos efeitos colaterais. O mais grave é que frequentemente o Orkut exibe alegres festas no cemitério dos ex-amores. Morrer faz parte da vida, assim como a separação é um destino possível para um amor apaixonado. Morrer é desaparecer da realidade para permanecer na lembrança, assim sobrevivem os falecidos e só se apagam, definitivamente, quando são cortados os laços que os uniram. É assim que a vida coloca as coisas no seu devido lugar e, quando as perdas são elaboradas de uma forma saudável, o indivíduo está pronto para novos empreendimentos, sejam eles afetivos, profissionais, ou culturais. Esse processo se chama luto e por ele transitam as pessoas que perdem alguém, seja por morte ou separação. [...]
Reconheço que meu melhor conselho para Suzi também é o mais óbvio e inútil: desligar o computador. É evidente que tentou fazer isso várias vezes, sem sucesso. Então, decidi inverter meu conselho: sugiro se ligar e aparecer de corpo inteiro no campo digital, retomar suas amizades verdadeiras. Se engordou, emagreça; se não faz ginástica, comece; se não tem uma bike, compre uma. Os velhos amigos talvez possam ajudar. Sorria, seja feliz, mesmo que seja só para tirar as fotos.
Admito que não seja o melhor método. O ideal seria uma alegria real e genuína. Porém, não importa, porque, sendo falsa, Suzi vai perceber que o Orkut também exibe mentiras ou meias verdades, inclusive alegrias que não existem. Será assim a do Eduardo? Os grandes amores, quando acabam, doem em duas direções e só sentem alívio quando um deles assume a totalidade do luto. Suzi fez isso, se apropriou da dor de ambos, por isso, se for mais feliz, encontrará a solução. Se é verdade que se organizam festas nos cemitérios, a melhor saída para Suzi é se vestir a caráter e ser a rainha do baile. Goldin.
A opinião do Zé.
Passado o mau humor e a serotonina já ajustada senti peninha de Suzi. Eu, particularmente, acredito na possibilidade dela deixar de se sentir apaixonada por Eduardo. Não sabemos se será num amanhã próximo ou distante. Para mim, Suzi precisa se sentir feliz para conhecer um novo amor e não para exibir uma felicidade embalada para um falecido. Não que ele não merecesse, mas é que pode não funcionar e virar um ciclo sem fim. Um ponto que achei interessante no conselho de Goldin e que me pareceu, pelo discurso, é que ele não conhece a ferramenta de exclusão, dentro do Orkut. Não consigo decidir se é o melhor caminho. Podemos experimentar todos, algum será a melhor solução para o problema de Suzi, mesmo que seja o tempo. No entanto, se precisamos enterrar nossos mortos, passar pelo luto, e fazer com que alguém saia da nossa realidade, qual seria a melhor escolha?
Você concorda ou discorda do Dr. Goldin? O quê você faria? O gato de Schrödinger poderia até ajudar Suzi, de maneira mais definitiva. Para ele, quando paramos de observar o objeto, logo ele deixa de fazer parte da nossa realidade – deixa de existir. Se interessar vale a leitura da crômica ‘O PULO DO GATO’ para compreender quando nossos amores estão vivos ou mortos, ou vivos e mortos ao mesmo tempo.
Foto: Gettyimages
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ZÉ | 12:04 AM | 40590370
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Domingo, Março 15, 2009
SERES COMPLEXOS
“Olhe a sua volta, se isso é um sonho o mundo todo está dentro dele.” Sam Foster
Adoro filmes que tratam de ficção científica - sobre realidade, em especial os que tem como base a física quântica. Tem algum tempo que o cinema americano faz grandes investidas no gênero. Acho que a trilogia mais popular, quase precursora, é do filme De volta para o Futuro (Back tô the Future), do diretor Robert Zemeckis. O último título lançado foi em 1990. Lembra de Marty McFly, um estudante rebelde que só pensava na namorada e era o fiel assistente do Dr. Emmett Brown? Você recorda que, após algumas descobertas do cientista maluco, eles voltavam do passado ou iam para o futuro na sua megamáquina - o automóvel DeLorian? Lembra que quanto ele atingia a velocidade de 140 km por hora era transportado pelas partículas elétricas do condensador para a data programada?
Fiquei pensando na questão do que é real, bem como tenho falado nas minhas crônicas. Minha proposta aqui não é discutir cinema, se bem que ele traduz magnificamente o que pensamos das questões da vida. Parece que quando vemos a vida representada na grande tela, somos também transportados para outra realidade. Imagino que isso se deva ao escurinho da sala, ao silêncio e a concentração, as dimensões da tela, ao som espacial que nos envolve. Só mesmo uma pipoca para nos trazer de volta para esse mundo. Bem... minha formação acadêmica foi em Comunicação. Depois vêm os filmes que assisti ao longo da vida. Passei a observá-los de uma forma mais atenta e argumentativa. Tento decifrar o que é subjetivo, os símbolos e ícones, mas minha capacidade analítica não passa disso. Entretanto, sou um belo observador do que pode ser real. Pior, aqui minha formação acadêmica é zero. O que julgo conhecimento não passa de pesquisas e do meu lado autoditada. Sou modesto para não cair no ridículo. Agora, se causo incômodo, por favor, leia o meu PREFÁCIO.
Você assistiu Efeito Borboleta (The Butter Effect), com roteiro e direção de Eric Bress e Macky Gruber? Adoro o ator do filme - Ashton Kutcher. Um excelente ator de suspense e drama, embora aspirante em comédia. A chamada do filme é a seguinte: Ele possui o dom de manipular o passado, mas não pode controlar o futuro. No filme, o personagem de Kutcher descobre sua habilidade de voltar à consciência no tempo. Com isso, retorna várias vezes a sua conturbada infância. No entanto, melhorar uma questão no passado significa alterar as consequências no futuro. Há algum tempo escrevi um texto que chama BOTÃO REWIND, vale passar o olho no assunto mesmo que seja pela curiosidade. Quem nunca se imaginou um Marty McFly, a fim de melhorar a vida lá na frente?
Hoje vai um agradecimento para um simpático rapaz, que infelizmente ainda não posso chamar de amigo, pelas indicações de duas obras fantásticas que tratam sobre física quântica. Nem vou citar o nome porque certamente este agradecimento chegará ao indivíduo. As obras indicadas foram o livro O Ser Quântico, da física Danah Zoar, e Stay, do diretor Marc Foster.
O filme STAY, aqui traduzido por A Passagem, com Ewan McGregor, Noms Watts e Ryan Gosling, mostra suas personagens que vivem em, pelo menos, duas realidades ao mesmo tempo. Preciso contar algo muito particular, mas não menos importante e tão pouco vergonhoso. No primeiro momento agi como todo mundo. Selecionei o idioma inglês, a legenda em português e o áudio em Surround 3:1. Como não sou um homem muito abonado, ainda não tenho a tecnologia 5:1 ou maior. Coloquei como de costume, quando assisto a um filme, umas pipocas para estourarem no microondas. Ok... sessão montada. Assisti.
Vamos à confissão: precisei assistir ao filme duas vezes para entendê-lo, mas, na segunda, optei por dublado em português. Isso para que eu não perdesse detalhes importantes, para que compreendesse as várias histórias que estavam sendo contadas - as várias realidades. Sabe aquele tipo de filme que começa pelo fim? Pois é! Vou revelar alguns acontecimentos de Stay, no próximo parágrafo, com o intuito da análise. Se você pretende assisti-lo, por favor, pule para o seguinte.
Imagino que o cinema, geralmente, faça filmes que são obras fechadas. Claro que quando a leitura é feita por dois sujeitos, por si só, as interpretações serão diferentes. Se você observar, mesmo as trilogias ou os filmes I, II, III, IV e V, acho que não passa disso, tem início, meio e fim definidos. Contudo, a proposta de Foster certamente foi uma só. Eu acabei concluindo que o único personagem que vivia na nossa realidade era Sam Foster; Henry, o pai e mãe, e a garçonete, provavelmente estariam mortos, ou seja, vivendo em outra dimensão. Sua namorada havia cortado os pulsos na banheira, daí suponho que ela também estaria morta durante a trama. Porém, é no final do filme que ela tem o primeiro encontro com o psiquiatra, o Dr. Sam. Para a Física seria muito simples e concebível que ela estivesse viva e morta ao mesmo tempo. Mas, para nossa realidade não. Para mim, Henry se mata duas vezes. Uma dirigindo o carro acidentado e outra se suicidando pela culpa, numa outra realidade, ainda que percebida somente por Sam.
“Os budistas têm razão: a vida é uma ilusão.” Sam Foster
Já imaginou termos um automóvel DeLorian, ou a capacidade de mudarmos o nosso nível de consciência para voltarmos ao passado, ou para avançarmos no tempo, a fim de modificarmos os acontecimentos ruins? Já experimentei algumas técnicas orientais que propunham a modificação do nível de consciência. Claro que você não altera em nada os fatos do passado, mas quando atingimos uma melhor frequência, que julgamos mais equilibrada, conseguimos modificar um evento lá no futuro. Ora, se hoje somos um ser melhor, com uma complexidade compreensível e ajustada, logo experimentamos uma melhor realidade num futuro próximo ou distante.
Entendo que, embora a ciência não comprove a vida pós morte, a realidade está acontecendo em outra frequência, em outra dimensão. Parece que Dr. Sam vivia em dois momentos reais e ao mesmo tempo. Havia um diálogo entre os dois mundos, as duas realidades. Interessante nisso é que os objetos tangíveis eram os mesmos nas duas dimensões, mas claro, esse é um recurso do cinema. É uma visão do diretor. E na vida? Será que tem alguém usando o nosso espaço, as nossas coisas, ao mesmo tempo? Será que estamos interagindo com outras frequências, além das ondas eletromagnéticas, que não percebemos? Será que todos os que estão a sua volta, nesse exato instante, fazem parte da mesma realidade? Eles, definitivamente, não existem para mim. Não sou um observador deles, mas você é. Sou eu quem não conhece a sua realidade.
Acho tão interessante as redes de amigos. Sofisticamo-nos e a trouxemos para a internet. É uma bela ferramenta de pesquisa e fuxicos. Mas, a velha maneira de se chegar a um amigo em comum, através de um bate papo real, também é bastante possível. Claro que na rede tudo é mais rápido e fácil, embora as pessoas apareçam como pretendem. Ainda assim, a informação estará aqui, para quem quiser saber. Agora, observar alguém da sua rede social, através do olhar do outro, te dá possibilidades de, com sutileza, obter informações valiosíssimas sobre seu respeito. Se você for atento, pode juntar as peças e formar alguma idéia, mais precisa, de quem é o sujeito em foco. O ilustre rapaz, que me indicou a bibliografia e o filme citados acima, é famoso por ser “pancadão”. Mais adiante fui entender que o sujeito ganhou o título por viajar em física quântica e por outros atributos também. Acredita que me identifiquei, genuinamente, pelo referido rapaz?
Enfim... somos seres complexos, eu, ele e você.
“Eu não roubei o seu anel, eu juro.” Sam Foster
Foto: Gettyimages
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ZÉ | 9:00 PM | 40587924
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