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Joseph Meyer
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Sexta-feira, Março 06, 2009

JOÃO BOBO TEIMOSO



Quando criança eu tive um boneco chamado João Bobo. Você se lembra do tal brinquedo? Era um boneco inflado com ar comprimido e sua base composta por um tipo de areia. O princípio é bastante parecido com o de uma peteca. É o princípio da física lúdica que nesses brinquedos é a busca do equilíbrio. Na criança busca-se o aprimoramento da coordenação motora; o ponto inicial do seu movimento. No caso da peteca, por exemplo, as penas, que são leves, estão na parte superior. O material mais pesado sempre está na parte debaixo, na sua base. Isso obriga que o objeto se mantenha no eixo de equilíbrio. No João Bobo, a força exercida determina que ele retorne a posição vertical - de início.

Então, nosso brinquedinho lúdico - o João Bobo Teimoso – nunca cai! Você pode chutá-lo, empurrá-lo, vira-lo de cabeça para baixo que ele estará sempre lá, na posição inicial – em pé!

Lembra daquela brincadeira chamada "Mole mole mole molengão"? É bom fazer com os outros né? Criança nunca espera que vai levar um tabefe na cara. Quem não a conhece se entrega e acaba na bofetada com o amiguinho. Criança não se prepara, ela se oferece até o momento do conhecimento de fato. Ela só sabe que a superfície quente queima, depois de ter torrado o dedo, por ter encostado sem o conhecimento prévio. É essa a lei do aprendizado para os movimentos da vida – dos nossos sentidos.

Sempre me achei um cara bastante intuitivo. Geralmente, acerto nas conclusões que faço pela observação. Já nascemos com alguma informação intrínseca e a maior parte do aprendizado se dá ao longo da vida. Alguns têm os sentidos mais aguçados, seja pelo toque, pela visão, pela capacidade de percepção das coisas. É assim que usamos os nossos sentidos, uns estão lá, por instinto, outros apuramos com o tempo. Quanto mais tempo de vida, melhores sensitivos nós somos. Parece que pegamos a coisa toda no ar.

Eu levo as pessoas a sério. Eu sou, antes de tudo, muito honesto comigo. Aprendi com o tempo, mas antes não era. É um amadurecimento natural. Outro dia li algo sobre o porquê das pequenas mentiras e concluí que é muito mais difícil para quem mente. O sujeito terá que se lembrar da mentira sempre, para não se enrolar. O título do texto era o seguinte: não minta para não ter que lembrar.

Se nos momentos de apuro você tiver que se safar de uma situação delicada, de uma informação constrangedora, fale menos e ouça mais. Omitir um fato pode trazer benefícios. Guardá-lo consigo pode trazer conforto para o outro.

Tava pensando... por que será que o carioca ganhou o apelido de malandro? No bom sentido da palavra significa que o cara é esperto, vivo, astuto; noutro, o sujeito é dado por abusar da confiança dos outros, que não trabalha e vive de expedientes, é preguiçoso. A fala não é minha não, é de Mr. Aurélio.

Tava contabilizando alguns números e concluí que, por mais cosmopolita que a cidade do Rio seja, a maioria dos meus amigos é carioca. O Rio é o paraíso da mistura de vários povos, da miscigenação dos seus moradores, dos viajantes, do estrangeiro. Tem o francês, o alemão, o português, o americano; tem o baiano, tem muito mineiro dada proximidade; tem paulista embora a rivalidade; tem muito nordestino e o povo do sul também; tem os gaúchos que são apaixonados pela Copacabana de praia nada azul.

Entre as coisas que precisei aprender na vida, lidar com pessoas foi fundamental e talvez a mais difícil. Vivo errando, mas só assim posso acertar. Pelo menos, julgo que tô aprendendo. A relação com o carioca foi um aprendizado à parte. Carioca é um povo descolado, malandro por natureza, meio da praia, meio do samba. Adora um dia quente; odeia dia nublado, faz o caos da cidade nos dias de chuva. E mais... são dourados! Tô falando sério, eles têm estampada na cor da pele a alegria dos dias de praia, do vôlei da areia, das caminhadas no calçadão, dos longos bate-papos travados nas calçadas da orla e da vida.

Eu tive um ciúme tão grande quando um dia, a gaúcha quase carioca, apesar de pálida, Adriana Calcanhoto, cantou que os "os cariocas são legais e além do mais não querem nem saber". É verdade, eles são menos preocupados com o quê os outros pensam deles. Eles são bastante relaxados. Penso que isso se dá porque o Rio é uma cidade litorânea e não é muito diferente de Floripa ou da Bahia, onde se troca a gravata pela bermuda, pela regata, pela sandália. Então, preciso concordar com a minha conterrânea. Também sou apaixonado pelos cariocas.

Imagino que nessa altura da leitura dessa crônica você esteja querendo me esquartejar, assim como eu quis fazer com a Calcanhoto no passado. Ok... vou revelar uma péssima fama que eles têm. Os próprios fazem questão de anunciar que são os maiores furões da cidade. A máxima que afirmo vem da seguinte situação: carioca pede para que você faça contato, mas não te dá o telefone e muito menos pede o seu. Ta se reconhecendo ai? Prepare-se para o puxão de orelhas. Claro, tem exceções viu! Quase todos os meus amigos são desse time - o da exceção - do contrário não passariam de conhecidos ou de colegas. Conselho: se eu fosse você nem daria o número do telefone, eles nunca vão te ligar. Entretanto, safo como sou, aprendi a lidar com os ditos dourados. É simples, basta ter pulso firme e deixar claro a que você veio. Mas, essa particularidade é do ser humano. Quem se interessa por você vem sem ser chamado. E, com jeitinho, você os conquista para sempre.

Ouvi um pensamento de um grande amigo, no caso um curitibano, que afirmava a seguinte diferença entre o carioca e o paulista: o paulistano te convida para entrar, enquanto o carioca te convida para sair. Vale lembrar que sou gaúcho. Achei o máximo esse pensamento. Em São Paulo as pessoas são da casa; são como os gatos. Os paulistas te recebem com um bom café, um chá, um belo almoço. Acomodam-te num confortável sofá. Já o carioca é da rua, é da Lapa, é do calçadão e da praia; são como os cachorros, são dos seus donos. Aqui convidam você para comer pizza na Guanabara, nos botecos de esquina. Os encontros são mais casuais. Gostou da analogia cão e gato? Só brinquei devido à rivalidade deles. Nada mais!

Acho que vou ser sempre criança. Adoro brincar. Estarei sempre aprendendo a me relacionar com o outro. Vou dar a minha cara a tapa até compreender este outro, de fato. Detalhe, se bater eu devolvo com um soco. Pretendo deixar a minha criança solta, pelos menos, para aparentar um pouco menos de idade. Sou meio travesso, meio errado, meio brincalhão, meio ingênuo, meio bobo teimoso. Outro dia queimei o dedo depois de enfiá-lo naquela raquete que mata mosquito. Até então não sabia que o negócio dava tamanho choque. E, na vida, tô arriscando. Tô levando empurrões, mas geralmente fico em pé. Se tem um título que me cabe bem é o de João Bobo. Não permito que alguém me chame assim. Preciso avisar que se tentarem me derrubar, eu não caio nunca!

Para concluir, amo os gaúchos, os mineiros, os baianos, os catarinos, os paulistas e os curitibanos. Se excluí alguém, me perdoe. Amo igualmente. É que só lembro-me dos amigos desses lugares. E quanto aos cariocas... evoé, amo-os de paixão!

Para quem sobrou, como diria Beyonce: To the left... the left!

Foto: gettyimages

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Quarta-feira, Março 04, 2009

O PULO DO GATO



Esse é o tipo de texto que, definitivamente, não dá vontade de publicar. Contrariei-me e postei na íntegra. Não que a minha pretensão seja ensinar o padre a rezar a missa ou o enterro, de forma alguma. Até porque os assuntos do coração quase todo mundo conhece. Os mais velhos e bem vividos, geralmente, tiram de letra. Os mais jovens vão aprender na marra, vão sofrer mesmo, não podendo ser diferente. É preciso sentir a dor do amor, a dor da perda, para se entender toda a poesia do mundo... e não existe época para isso, pode ser na infância ou na velhice.

Falar sobre o amor parece uma tarefa simples, mas não é sobre ele que pretendo tratar. Quero falar sobre a morte – a morte dos nossos amores. É muito difícil discutir sobre o final de qualquer coisa que nos deixe saudade. É muito difícil abandonar aquilo que nos faz feliz. Você sabia que é por isso que permanecemos apaixonados por muito tempo? Quem disse que queremos abandonar um sentimento que é bom? Parece simples fazer paralelos e cognições entre um sentimento e outro – amar e perder – mas não é.

Você conhece o gato de Schrödinger? Fui apresentado a ele através da física Danah Zohar, no livro O Ser Quântico. Schrödinger propõe que a realidade só acontece quando a vemos. Em resumo, o físico prova o experimento colocando um gato dentro de uma caixa fechada. Em certo momento o bichano recebe uma comida que tem cinquenta por cento de chance de ser contaminada por uma partícula radioativa, que mataria o gato na ingestão; e outros cinquenta por cento de chance da comida não ser contaminada, o que manteria o gato vivo até a próxima refeição.

Até aqui ta compreendido? Pois bem... a cada novo alimento recebido os observadores presumem que o gato morre, mas ele tem 50% de chance de continuar vivo. O interessante nessa experiência é que o gato – o ser quântico - só estará definitivamente morto quando abrirmos a caixa e constatarmos o fato. Então, a todo o instante, o gato estará morto e vivo para a realidade, até que a caixa seja aberta. Pescou os envolvidos no evento? O mais importe é entendermos que sem o observador, não existe a realidade.

Se tem algo que eu não tenho medo, nesse mundo, é da morte. Hoje, você vai me achar um belo pessimista, mas, no cômputo geral, meus textos são de otimismo. Entretanto, as pessoas fogem do assunto como o diabo foge da cruz. O que mais me assusta é a forma como morremos. Seria bom se morrêssemos dormindo, mas nem sempre é assim. Dizem que a doença está associada à expiação de culpas. E diga-se, o ciclo da morte acompanhada de doença é bastante doloroso. Se, por um lado, serve de aviso para que a família se prepare para o momento final, por outro, quando prolongado, só traz sofrimentos.

Eu me propus viver até os 47. Pronto... falei! Achou-me um louco? Bem... não disse que viria aqui para me mostrar bonitinho e bonzinho. Cada qual com o a sua loucura. Cada um sabe o tamanho da dor que consegue suportar. Numa análise breve você vai dizer que estou fugindo da velhice, da mínima aposentadoria, da solidão. Num exame mais profundo você vai ter certeza disso. Vou ficar aqui sofrendo as mazelas da vida para quê e por quem? Acho que serei mais útil do outro lado. Mas, se Deus preferir que eu fique, por um tempo maior, que seja feita a Sua vontade. Minha única exigência é que eu tenha saúde de ferro e sabedoria.

Sabe outra coisa que me preocupa profundamente e que me causa angústia? É o fato de ser esquecido. Embora tenha aprendido a levar uma vida bastante solitária, meio autosuficiente, sinto medo da solidão. Se mexer comigo nesse sentido viro uma verdadeira criança – fico com cara de cachorro abandonado, peço colo, e faço tudo errado. Contudo, não falo só desse abandono espontâneo do ser humano; desse hábito que a maioria tem de sumir do outro. Tenho medo que as pessoas que conheço, e que me amam, percam a lucidez por mim. Isso me assusta. Já imaginou teu pai, tua mãe, a pessoa que te acompanhou pela vida, esquecer quem você é?

Assisti a um filme interessantíssimo chamado O Curioso Caso de Benjamim Button, uma adaptação do romance de F. Scott Fitzgerald. É a história de um sujeito que nasce velho e morre criança. O processo é muito criativo; a idéia é fabulosa e fantástica. Acho que deveríamos nascer assim; deveríamos morrer crianças. Interessante é que em ambas as situações o indivíduo acaba sem memória. Vi mais dois filmes, o Leitor e Milk, mas preciso revelar que estes heróis morrem no final. Eu sei que todos nós morremos. Parece que essa ideia vem me assombrando. Só queria que meus heróis da vida real vivessem para sempre. Queria que eles ficassem para mim.

Você acredita que eu nunca fui num enterro? Quando criança, eu passei perto de um velório e nada mais. E olha que não tenho medo dos mortos, tenho mais medo dos vivos. Acho que esse é meu sentimento porque quando meus avôs morreram, eu estava distante. A minha família é extremamente jovem. Esse povo ainda viverá por muitos anos. O dia em que tiver que enterrar alguém, provavelmente me enterro junto. Tomara que me surpreenda comigo mesmo e que até lá esteja preparado.

Para concluir, o difícil assunto e a minha triste crônica, preciso dizer que acredito na vida após a morte. Acredito na continuidade do que vivemos aqui. Assim fica, pelo menos, mais fácil. Preciso dizer também que sou um aprendiz quando penso em enterrar meus mortos. Preciso dizer ainda que sou um observador do gato de Schrödinger. Tô aprendendo que posso escolher manter as minhas realidades vivas, ou posso enterrá-las a qualquer momento. Meu conselho é que paremos de observar o que não nos faz bem. Deixemos o que não nos é útil dentro de uma caixa fechada. Logo, aquilo deixa de existir no presente e quem sabe, assim, se consiga viver muito mais que os 47.

Foto: Gettyimages

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Domingo, Março 01, 2009

QUANDO UM BEIJO VALE MEIA-ENTRADA

Domingo pós-carnaval é a última chance que tenho para pular num bloco. Pois não é que tô lendo o roteiro de cinema? Nunca me achei um cara cinéfilo. Pelo contrário, apesar de curtir cinema, fico me obrigando a ver os filmes mais comentados. Tava pensando em comprar um home theater para ver se me animo, mas, nesse caso, só transfiro o problema porque vou relutar para ir até uma Blockbuster buscar um título.

Adoro ver fotos de bloco de carnaval. Acho o povo tão animado e feliz, pelo menos nas fotos. Claro que lá eles estão suados e bêbados, mas vale o sacrifício, afinal, é esse o espírito do carnaval de rua. Se você não quiser passar sem pegar o bonde da história é melhor vestir sua máscara, mas que seja a da fantasia. Vai lá, mesmo que contrariado, abra uma latinha da sua cerveja preferida e brinque.

Acho que o primeiro bloco de rua data da década de 1920. Foi Angenor de Oliveira, fundador do Bloco dos Arrengueiros, que iniciou toda essa brincadeira. Estou falando de ninguém menos que Cartola. Foi naquele momento que surgia a Estação Primeira de Mangueira, que mais tarde viraria uma Escola de Samba – a Verde e Rosa.

Se antes, o intuito dos blocos era arrastar o maior número de foliões pelas avenidas do centro da cidade do Rio. Hoje, a brincadeira contagia o país inteiro nas suas mais diversas formas de alegria e folclore. Deixei para pular a festa no último dia, mas não dou menos importância não, foi questão de escolha e contratempos.

Ao lado da minha casa, mais ou menos uns trezentos metros, tem cinco salas de cinema da rede Cinesystem. Tava pesquisando os filmes em cartaz e vi que são 45 em toda a cidade. Adoro o New York Shopping por comportar 18 salas. É o máximo, não? O hall de entrada parece o de um aeroporto. Você já viu o combo deles? É mais caro que o ingresso, mas a pipoca é de dar água na boca. Sabe que o Cinesystem me atende bem, mesmo não passando filme de arte? Acho que eu é que tenho implicância, ou porque estou acostumado a pegar o carro para tudo. Na verdade, quando Lúcio Costa projetou a região em que vivo teve na idéia uma Miami Carioca. Aqui tudo esta longe de você, mas no cinema posso ir a pé.

Dos indicados ao meu Oscar ainda não consegui assistir O Curioso Caso de Benjamim Button e o vencedor deles - o filme Quem Quer Ser um Milionário? Eu quero... jogo na Mega-Sena tem uns vinte anos! Mas, consegui assistir Milk – A Voz da Igualdade e O Leitor. Dois filmes tristes que me fizeram chorar à vera. Você não imagina com que delicadeza Sean Penn, ganhador do Oscar de melhor ator, interpreta um ativista gay, cujo nome dá título à obra. O cara é fera e você jura que a causa é dele.

Li algo, outro dia, que o dublador de Penn, aqui no Brasil, se negou fazer a voz do personagem por se tratar de um gay. Pode? O filme mostra justamente o preconceito com que a sociedade tratou um grupo de ativistas, na década de 1970, e ainda hoje, mais de trinta anos depois, um cara chamado Marcos Ribeiro, assume publicamente o tamanho do seu preconceito.

Falar da Kate Winslet em O Leitor não será necessário. Preciso apenas registrar que o prêmio de melhor atriz foi igualmente merecido. Sabe o que me chamou atenção além da triste história? Foi o fato de uma bela atriz topar aparecer tão feia. Eu, particularmente, acho que quando as belas atrizes de Hollywood se despem da sua beleza e se entregam as suas personagens, isso, por si só, já vale um belo aplauso.

Bem... tomei a minha decisão a tempo. Vou dar um pulinho no Bloco do Ivo Meirelles, visto que ta a poucos quilômetros de mim, aqui na praia do Recreio, no local onde resido. E logo mais, terei tempo de ir ao Cinesystem para descobrir como é possível rejuvenescer no tempo. Ouvi dizer que Benjamim Button é uma das histórias mais belas de um homem incomum. Amanhã, preciso ver o filme ganhador do Oscar. Dizem que também é imperdível.

Boa escolha para você. Presumo que tenha decidido ir para os blocos, né? Também vou, mas para mim só faltou à parceria, em especial para pagar a meia-entrada. A promoção do Cinesystem é a seguinte: depois do bloco, se você der um beijinho na frente da bilheteira, só paga meia.

Foto: arquivo pessoal

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posted by ZÉ | 12:10 PM | 40577082 | |


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